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Newsletter #3

Nº 03 | DOMINGO, 30 DE JULHO DE 2023

 

EDITORIAL ALERTA

Quero sempre repetir que minha tarefa aqui é apoiar uma corrente de opinião que saiba o que, de verdade, está acontecendo no Brasil.

Isso, independentemente de torcida (contra ou a favor), de propaganda, ou de pura e simples manipulação.

 

Quero sempre trazer informação baseada em dados comprováveis, em análise livre de manobras mesquinhas e com uma aposta firme na inteligência do meu leitor/ouvinte!

 

Você vai sempre observar a defesa do interesse público - não importa se contra gigantescas corporações ou interesses poderosos.

 

Seja quem seja, venha de onde vier. 

Na última carta,  mostrei que, de novo, nossos governantes estão usando pesadas somas de dinheiro público para beneficiar os poderosos barões do mundo financeiro brasileiro.

 

É o DESENROLA.

 

O caminho escolhido é tão enrolado e torto, que vou usar pergunta e argumento irônicos para chamar atenção para o absurdo.

 

Pergunto: já que estão “dando” dinheiro para ricos, para saldar dívidas de pobres, porque não “dão” este dinheiro diretamente aos endividados?

 

Argumento: como sei que não há almoço nem esmola grátis, não defendo nenhuma das duas hipóteses. 

 

Mas não posso concordar com a pior delas. Que é simplesmente criminosa.

 

Explico: se o governo “desse”, em média, R$1400 para cada devedor negociar seu débito nos leilões do SERASA, estaria sendo mais honesto com o país e mais justo com os 71,45 milhões de endividados do que da forma que está fazendo. 

 

Pois optou em “dar” aos bancos e financeiras uma montanha de dinheiro através da dispensa de impostos (crédito tributário) e da garantia do Tesouro (Fundo Garantidor) ao montante negociado.

Ou seja, transformou um débito imprestável em débito bom, usando o dinheiro do povo. Uma alquimia em favor dos banqueiros.

 

Porque se os devedores não pagarem os valores renegociados, o governo pagará aos bancos e financeiras.

 

É um genuíno escândalo!

 

Não houve um desmentido sequer, nenhuma explicação e, pior, o silêncio absoluto da grande mídia e da "ex-querda" (ironia) entre os políticos.

 

Que tempos asfixiantes!

 

É a mesma prática do FIES: é muito bom para um estudante pobre poder fazer, com dinheiro público, um curso privado de medicina, por exemplo, que cobra entre R$10 mil e R$15 mil por mês.

Mas então porque  não se dá, pura e simplesmente este dinheiro a quem precisa? (mais ironia).

 

Não, aí não pode!

 

É o mesmo mecanismo: o governo dá este dinheiro aos megaempresários da educação privada e deixa no caminho um papagaio assinado pelo estudante pobre como responsável pelo empréstimo.

 

Por ser pobre e a economia estar estagnada há décadas, o estudante não dá conta de pagar e…vai para o SPC!

 

Resultado desta estranha operação: o Brasil gerou, com dinheiro público, os maiores conglomerados de educação privada do MUNDO e, pela mesma razão, produziu a maior quantidade de jovens pobres, começando a vida superendividados. Pior de tudo é que a liderança estudantil cooptada, calada fica, ou muda de assunto ligeirinho.

 

Que tempos asfixiantes!

 

É o mesmo com o “cash back” com dinheiro público para alguns poucos da classe média alta comprarem carro com desconto.

 

É o mesmo com o financiamento com dinheiro público para alguns poucos viajarem de avião pela primeira vez nos assentos que voariam vazios na baixa temporada. 

 

Que tempos asfixiantes!

 

FITCH – AGÊNCIA DE RISCO – MUDA CLASSIFICAÇÃO DO BRASIL – AGORA VAI!

Seis dias antes da quebra do banco Lehman Brothers, que deflagrou, em 2008,  a maior crise da história do capitalismo moderno, a agência de risco  Standard & Poor’s anunciou o “rating” deste banco norte americano como “A” - uma das melhores classificações possíveis! 

 

Na época, também era ostentada no mercado, a classificação de risco da agência FITCH, esta que agora embala a alienada propaganda oficial brasileira:  “AA-“ . Uma das melhores classificações possíveis também!

 

Se as duas mancadas estão distantes, vamos trazer uma mais nova. Há poucos meses, nas vésperas do anúncio da maior fraude contábil da história moderna do capitalismo à brasileira, o das Lojas Americanas, a mesma FITCH dava ao conglomerado fraudador o rating “BB”  - desgraçadamente o mesmo rating que deu agora ao Brasil, como País!

 

Uma desagradável coincidência  ou uma lição de como devemos encarar certas avaliações? 

 

Uma breve explicação para quem não é iniciado nestes assuntos: o risco de operações financeiras ou intrínsecos a organizações empresariais gerou um mercado de empresas de classificação destes riscos. 

 

LEIA MAIS (4 MINUTOS DE LEITURA)

Assim, por exemplo, um fundo de pensão de professores universitários de Yale que tem um monte de dinheiro e precisa aplicar este montante, “compra”  pareceres destas agências de risco,  ou, simplesmente, observa que tipo de risco as agências classificadoras atribuem a esta ou aquela outra instituição ou aplicações.

 

Boa parte regula que só faz aplicações em instituições e produtos financeiros a partir de uma certa classificação, o “investment grade”, como chamam no jargão deles. 

Veja abaixo a tabela que mostra a quantidade enorme de “ratings”, ou seja, de classificação de risco.

 

Variam de “AAA” (risco zero) a “D” – calote certo segundo a FITCH. Entre uma e outra, há nada menos que 20 possibilidades!

 

O Brasil alcançou agora, pasmem, a posição de número 12! Sim, para a divindade FITCH há 11 posições melhores que o risco que o Brasil representa para o calote! E abaixo, vale dizer, apenas 09 posições!

 

Ou seja, não é nenhum exagero dizer que o que aconteceu esta semana foi NADA! Isto mesmo, NADA em matéria de consequências nos fluxos potenciais de investimento entre nós.

 

Mas NADA? Deve o assinante perguntar . Bem, saímos de “BB-“ para “BB”. Quer dizer, estávamos em “BB” com tendência negativa e permanecemos em “BB”, agora sem tendência. Até aí não é nada, não é nada.. não é nada mesmo!

 

Mas fui tratar de ler o argumento FITCH (já adianto que há uma orquestração entre praticamente todas as agências na mesma direção) para compreender o momento e causas da “boa notícia”.

 

É impressionante, caro assinante! É uma peça de propaganda ideológica! Não há absolutamente nenhuma racionalidade técnica!

 

E tem todos os elementos de  ser um esforço articulado para apertar ainda mais o cabresto sobre a sorte do povo brasileiro, em favor da aberração em vigor, entre nós, de política econômica.

 

Vale ressaltar que o rating “BB-“, assim como o “BB” de agora são completamente descabidos. O Brasil, nem remotamente, tinha nem tem risco soberano de iminência ou possibilidade de calote. Razões práticas a FITCH conhece: nossa dívida interna é quase toda referida em reais, nossa própria moeda; nossa inflação é menor que a da América do Norte e do que a da Europa, e ainda assim toda perda inflacionária está mais que abusivamente indenizada com dinheiro público via a aberração técnica de nossa campeã mundial eterna, taxa de juros doméstica.

 

De onde vem ou viria  o tal risco? Fosse ele o de longuíssimo prazo, o “triple A” dos títulos do tesouro americano então também não seria? Ou seja: trata-se, no mínimo, de uma grande bobagem!

 

Acreditem, meus amigos e amigas, tudo isso faz parte de um esforço articulado de asfixiar, no mais ínfimo nascedouro, qualquer debate sobre as terríveis inconsistências do modelo econômico em vigor entre nós.

 

Este modelo que transformou o estado brasileiro numa poderosa e cruel máquina de transferir renda de quem trabalha e produz para os rentistas a quem profissionalmente estas agências servem com fidelidade e esmero.

 

Se você ler o relatório, você vai ver o elogio despudorado à “reforma previdenciária” (o Brasil é um dos últimos três países do mundo organizado a manter um regime de repartição – os outros dois são ,vejam em que companhia estamos – Venezuela e Argentina).

 

Elogios à “reforma trabalhista” (somos a economia com maior taxa de informalidade no mundo organizado).

 

Dá como favas contadas a “reforma  tributária”  e o “novo arcabouço fiscal”, tal qual a propaganda fala.

 

Rasga elogios à autonomia do Banco Central e à sua política de juros. E diz que “se surpreenderam” com números melhores que o esperado no fluxo fiscal, apesar dos números oficiais anunciarem, já, que o déficit primário este ano será maior que o anunciado ( R$ 145 BILHÕES de Reais e contando...) e que, portanto, a dívida pública brasileira vai crescer pelo menos 2 pontos percentuais sobre o PIB em relação ao ano passado.

 

Isso significa, senhores da FITCH, que só de JUROS, vamos “pagar”, melhor dizendo, contabilizar no principal, algo ao redor de R$ 700 BILHÕES de reais (mais de 6% do PIB, quase 2% do PIB A MAIS do que no ano passado enquanto vigia nosso “BB-“).

 

Ou seja, o déficit é maior que o anunciado,  o estoque da dívida vai crescer, os juros são criticamente altos em padrão internacional, os prazos de vencimento da dívida estão apertando, (alô, alô, FITCH em qual lugar do mundo quase um quarto da dívida vence em menos de um ano?).

 

Vocês sabem ao menos o que é operação compromissada?

 

Pois bem, o que fica é minha denúncia de que a qualidade de sua classificação de risco do Brasil vale tanto quanto a qualidade da classificação que os senhores deram à Lehman Brothers.

 

A questão que o Toinho da Meruoca, citado pelo artista Totonho Laprovitera, me faz é: quanto custou esta joça?

 
 

FATOS, FACTOIDES OU COMO LULA FAZ CERTA ELITE DE PATINHO PARA ENGANAR OS BOBOS

Poucas vezes vi, nestes tempos recentes, uma campanha articulada de difamação e de desmoralização tão pesada quanto a que o “sistema” move, estes dias, contra um dos últimos petistas que não se rendeu ao neoliberalismo tacanho e agiota que nos governa desde 1995, sem interrupção!

 

O “cabra marcado para morrer” da vez é o Phd Márcio Pochmann, professor da UNICAMP, um dos últimos refúgios acadêmicos de uma tentativa semi morta de um pensamento econômico brasileiro autônomo. Porque, apesar das nuances de um ou de outro, TODOS os que nos governaram neste período praticam hoje, e praticaram ontem, o mesmo modelo econômico.

 

O linchamento de Pochmann é prenhe de lições para quem conhece o verdadeiro Brasil e não se deixa enganar.

 

LEIA MAIS (6 MINUTOS DE LEITURA)

Marcio Pochmann não foi nomeado Ministro da Fazenda, nem presidente do Banco Central,  ou mesmo para Ministério do Planejamento de araque neste país sem qualquer projeto. Nem sequer é presidente da Caixa econômica ou mesmo do Banco do Nordeste. Foi nomeado para o IBGE, digamos assim, o termômetro da vida brasileira. Como se sabe, termômetro não gera nem cura febre, apenas mede.

 

Então porque tantos e tão furiosos ataques? Por que o deboche? Por que a falta total de um mínimo respeito na pena arrogante e, por regra, muito ignorante, de tantos escribas e editorialistas?

 

Todos tagarelando na mesma direção, como que “brifados” por um único cérebro clandestino (nem tanto, nem tanto, amado mestre).

 

Explico: o “consenso” tecnocrático que nos governa não resiste ao mais reles debate. Não resiste se o método é o debate teórico sobre modelagens de desenvolvimento.

 

Não resiste se o método for a experiência comparada com todos (!) ou qualquer (!) país do mundo organizado.

 

Não resiste se o método escolhido for a mera leitura estatística de nossos próprios números ao longo dos últimos 35 anos de democracia meramente eleitoral! Como não tem  a menor capacidade de se afirmar por qualquer destes métodos, o tal “consenso” se afirma no suborno generalizado, na cooptação corrupta do poder político traidor, na pasteurização da informação publicada na mídia, na ignorância das maiorias impedidas de conhecer pedagogicamente seus próprios interesses.

 

E se beneficia na distração dos setores mais potencialmente críticos da chamada sociedade civil, dispersos nos identitarismos de uma agenda hiperfragmentada da vida coletiva, ainda que bem intencionados.

 

É aqui onde o gênio político de Lula reina, facilitado por uma absoluta falta de escrúpulos!

 

Por o conhecer bem,  ele parece desprezar um certo Brasil que temos. E este desprezo parece aumentar quando, por vezes,  um recôndito remorso lhe ataca. Aí é que ele  faz com esmero o que aprendeu a fazer, como mestre sem rival: manipula, desorienta, divide e… reina!

 

Vamos desvendar o episódio.

 

Lula montou um governo com características hoje muito claras. Entregou a economia para a Faria Lima, eufemismo para o baronato financeiro; entregou o orçamento para a oligarquia política que nossa “elegância” picareta chama docemente de centrão; e entregou a agenda identitária para o que Lenin um dia chamou de esquerdismo infantil. O que vinha a ser -segundo o revolucionário russo e não o grande artista pernambucano homônimo - a doença infantil do comunismo.

 

Bem, enquanto isso, ele cuida de passear, pelo mundo afora sua tentativa de ser o novo Fidel. De passagem por aqui, ele faz destas… é aí que voltamos ao professor Pochmann.

 

A Faria Lima precipitou-se no elogio ao Haddad, exagerou na dose e pôs o “companheiro” precocemente sob suspeita. Não teve a malícia, que só Lula tem, de guardar sua gratidão para si mesma.

 

Na rua o desemprego campeia, a falência se expande, a inadimplência alopra, o salário real cai, 23 estados estão semi falidos, o país virou o deserto de obras paradas, ou seja, nossa agonia econômica de décadas está aí.

 

Então…vamos mudar de rumo ? Claro que não! Está decidido, vamos distrair os nossos!

 

Para fora, um vai e vem meio vergonhoso. Sobre Ucrânia e Rússia, por exemplo, uma palavra pros EUA, outra completamente diferente para chineses e russos, outra mais ainda para a Europa. E para os nossos aqui dentro, um mentiroso antiamericanismo.

 Para os nossos, um balé acintoso com Maduro (democracia como valor relativo), Foro de São Paulo (onde disse que tinha orgulho de ser chamado de comunista, ora vejam!) ou assumir com o Papa Francisco uma piedosa tarefa de pressionar a ditadura corrupta da Nicarágua pelo fim da perseguição que move contra religiosos.

 

Na França, a construção de uma mediação para que a Venezuela realize eleições limpas (?).

 

Não se espantem e acreditem: a nomeação de Márcio Pochmann para o IBGE faz parte deste teatro.

 

Enganar aos bobos da esquerda submissa a Lula de que um “nosso” está sendo imposto contra o  “sistema”. 

 

 Por isto o requinte de humilhação a que a ministra Tebet foi submetida.

 

E o sistema parece cair como um patinho. Aceita e aperfeiçoa a polêmica. “E tudo continua como dantes, no quartel de Abrantes”.

 

Mas olho, moçada! O  “sistema” nada tem de bobo, como bobinha é nossa esquerda infantil nas mãos de Lula.

 

Pochmann no IBGE pode e vai (até ser demitido) produzir estudos com suporte científico e o prestígio técnico de que goza merecidamente nosso Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

 

E isto é um perigosíssimo movimento em direção a instrumentalizar o debate castrado.

 

Exemplos dos primeiros estudos que espero ou desejo (ou apenas sonho que possam acontecer): sendo o País mais rico da América Latina, por que o Brasil dá a seu povo apenas a 8ª renda per capita do bloco e tem o pior salário mínimo das Américas só ganhando da “democracia relativa” da Venezuela? 

 

Ou uma estatística mais fresquinha, desta semana: o último CAGED (cadastro geral de empregados e desempregados) registrou o PIOR desempenho para o período (1º semestre de 2023) desde 2020, início da série histórica.

 

Caiu 26,3% em comparação (que vexame, rapaziada petista) com o mesmo período de 2022.

 

Em junho agorinha, 602.804 brasileiros e brasileiras pediram o seguro desemprego , uma alta de 11,7% em comparação com o mesmo mês do ano passado.

 

É isso que o “sistema” tem horror: de que tudo isto seja “escurecido”, ou seja, na novilíngua no poder, melhor explicado. Daí o terrorismo infamante contra o professor Pochmann. Bom trabalho, doutor Pochmann, desejo eu.

 

PS: Como qualquer um , Marcio Pochmann já andou falando coisas erradas, embora sempre no contexto correto. A crítica ao PIX, por exemplo, foi função do cacoete petista de botar defeito em tudo o que não tenha sido eles que fizeram ou defenderam (Lula e o PT lutaram pesadamente contra o Plano Real, por exemplo). Mas o contexto da crítica feita ao PIX se encadeava numa lógica de digitalização do Real como passo para sua conversão livre em direção a uma dolarização da economia. A grande bobagem em vigor caoticamente na Argentina. Ou da autorização feita por Bolsonaro para que os endinheirados brasileiros possam ter conta em dólar aqui dentro. 

 

UM “PLANO SAFRA” PARA A INDÚSTRIA?

O Relatório Reservado - publicação alternativa interessante embora muito alinhada ao petismo - publica um “furo” que eu gostaria muito de repercutir aqui, torcendo para que seja verdade.

 

Estaria em gestação entre o ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (ocupado pelo vice presidente Geraldo Alckmin) e o BNDES (ocupado por Aloizio Mercadante, outro dos últimos moicanos petistas que não parece ter se convertido ao neoliberalismo agiota tosco que nos governa) um “novo arcabouço industrial” para o Brasil ou um “Plano Safra” para a indústria brasileira.

 

Os nomes são os mais ridículos possíveis, tudo por medo de assumir que estaria em gestação uma política industrial e de comércio exterior para o Brasil.

 

Se a isto acrescentarmos outra questão de máxima centralidade - ciência, tecnologia e inovação - e se aprendermos que política industrial não pode ser distribuição de privilégios ou a sanção estatal de ineficiências privadas (os últimos sinais são péssimos tipo o “cash back” para promover vendas de carros), estaríamos, finalmente, indo ao encontro das melhores práticas internacionais.

No caso, o fomento público ao desenvolvimento de cadeias produtivas complexas, base para os serviços sofisticados da economia do conhecimento, sem o que caminhamos aceleradamente para nos transformar em uma ex-nação.

 

Acreditem, nenhum exagero há nestas palavras!

 

Imaginar que vamos pagar o modo moderno de vida a que nosso povo justamente aspira com commodities, sem quase nenhum valor agregado, é a ilusão tosca e trágica que está por trás das crises agudas de 1999 e 2015.

 

Mas, fundamentalmente, ela explica a crise crônica em que estamos atolados desde a redemocratização. Embora, claro, não por causa dela - mas de nossa rendição ao neoliberalismo tosco e agiota sem par no mundo!

 

Quando os preços de petróleo, minério de ferro, soja, frango e boi vão ciclicamente bem, disfarçamos nossa insustentável conta com o estrangeiro. 

Quando eles  caem, quebramos!

 

O buraco em nossas contas externas, se separarmos o setor da manufatura ao mero crescer de pífios 2% da economia, se aproxima perigosamente de U$ 130 bilhões em um único ano.

 

Temos outra pancada desta mesma proporção na conta de serviços.

LEIA MAIS (5 MINUTOS DE LEITURA)

Não será mais a indústria de transformação quem responderá pela necessidade crítica de empregarmos nosso povo trabalhador mas, sem esta indústria nova, não teremos base para o estabelecimento dos serviços sofisticados que têm nela, sua base.

No Brasil as ameaças e oportunidades são tão claras que só a estupidez de nossa elite governante não enxerga, e não deixa enxergar, diagnósticos e terapêuticas.

Torcendo que seja verdade que nosso governo está se esforçando para nos trazer uma nova política industrial, adianto aqui algumas obviedades pelas quais tenho me batido há muitos anos. 

Quatro setores seriam exemplares de um novo começo. Critério transparente: maiores buracos naquela conta de manufaturados, alguma expertise tecnológica já dominada, escala razoável pelo tamanho do mercado doméstico, financiamento já existente pela compra governamental ou pela encomenda privada relevante, algum protagonismo global. 

Pulam aos nossos olhos, se tirarmos a venda ideológica imbecil que cega nossos líderes: complexo industrial do petróleo, gás e biocombustíveis, complexo industrial da saúde, complexo industrial da defesa e complexo industrial do agronegócio! Aqui explodem como exemplos óbvios, apenas. Mas temos que passar um pente fino em tudo! Temos que esclarecer como pretendemos nos relacionar com algumas outras obviedades das quais estamos muito mais distantes, tipo o ecossistema do carro elétrico, o hidrogênio verde, a descarbonização da economia global, a questão de novos materiais, semicondutores e telecom, nanotecnologia, satélites, foguetes e indústria aeroespacial, informática (hard e software), biotecnologia, robótica, Inteligência artificial, mecatrônica. Meu Deus… listando assim estes setores, me assusto com o que deixamos acontecer conosco enquanto as vanguardas da humanidade voavam! 

A apologia da ignorância inerente à demagogia dominante de nossa política há 35 vai nos cobrar um preço talvez impagável!

Mas hoje quero celebrar a iniciativa do governo, se for verdade!

O desafio não é pequeno. Exige respostas práticas e inovadoras na contramão de tudo que nos governa nestas décadas em que a proporção da indústria de transformação, no PIB, caiu de algo ao redor de 30% para algo ao redor de 11% entre 1980 e 2022.

A denúncia da taxa de juros exorbitante é apenas o óbvio ululante, como dizia Nelson Rodrigues. O desafio do financiamento é muito maior e mais complexo: vai de aumentarmos a formação bruta de capital (taxa de investimento total) - hoje em menos de 17% do PIB - para qualquer coisa nunca inferior a 22% do PIB.

Perguntemos como. Mas, com urgência necessária e possível, precisamos traduzir em nossas práticas financeiras tipos de capital que conhecemos muito pouco em nossas práticas médias: seed money, angel money, venture capital. Empreender com dinheiro emprestado modernamente e entre nós, especialmente, é impossível .

A administração da taxa de câmbio que fazemos é o exato inverso do que fazem a China e os chamados Tigres Asiáticos . Aqui se manipula o câmbio para estimular o consumismo insustentável, lá ,para estimular a produção e o ganho da competição no comércio exterior (está acontecendo de novo!).

Propriedade intelectual e aceleração do nível de maturidade tecnológica que temos em comparação com a ponta mundial, setor a setor. Capacitação em massa de nossa juventude e mecanismos de identificação de potenciais empreendedores individuais ou de grupos. Hoje a legislação brasileira, tosca e anacrônica, restringe gravemente as possibilidades de extensão universitária para o mundo produtivo, fluxo instantâneo no mundo desenvolvido.

 

A estrutura de registro de patentes no Brasil é um escândalo! A ANVISA, outro escândalo! 

O Centro de biotecnologia da Amazônia , um potencial enorme quase abandonado, a liquidação criminosa do Ceitec – única fábrica de semicondutores abaixo da linha do equador - parou na lei, mas não parou na prática…

A legislação brasileira anacrônica e alguns tratados internacionais em andamento são obstáculo físico grave às compras governamentais, como ferramenta amplamente usada pelo mundo desenvolvido para promover seu desenvolvimento .

Enfim, por agora, creio que meu entusiasmo com a “novidade” talvez seja véspera de mais uma grande decepção, mas precisamos todos ajudar no infernal debate que virá se, de fato, resolvermos enfrentar os poderosos lobbies estrangeiros e seus vassalos entre nós, e devolver ao povo brasileiro seu direito a viver de trabalho decente e não de bolsa isso ou bolsa aquilo.

 


ENQUANTO ISTO NO BRASIL REAL AQUI E AGORA

Situação atual do setor químico nacional: crise à vista

   Análise do professor Paulo Gala

A situação do setor químico nacional é extremamente grave e requer, com máxima urgência, o apoio do Governo Federal para a implementação de medidas emergenciais e estruturais. Segundo informações da ABIQUIM, as principais questões enfrentadas pelo setor são as seguintes:

 

1. Queda acentuada na produção e vendas: No primeiro quadrimestre de 2023, os volumes de produção e vendas atingiram o nível mais baixo dos últimos 17 anos. O nível de utilização da capacidade instalada também sofreu uma diminuição significativa, com uma queda de aproximadamente 10 pontos percentuais em comparação ao mesmo período do ano anterior, ficando em apenas 67%. Todos os grupos de produtos químicos apresentaram redução no uso da capacidade instalada nos primeiros quatro meses de 2023, em relação ao mesmo período de 2022, destacando-se os intermediários para plastificantes e fibras sintéticas.

 

2. Diminuição na demanda interna: A demanda por produtos químicos de uso industrial encolheu no primeiro quadrimestre de 2023. A produção registrou uma queda de 13,13%, enquanto as vendas internas de produtos fabricados no país recuaram 8,85%. Por outro lado, as importações desses mesmos produtos aumentaram 10,1%, conquistando uma maior fatia do mercado doméstico, correspondendo a 42% do total, em comparação aos 37% nos primeiros quatro meses de 2022. Destaca-se o aumento nas importações de intermediários para fertilizantes, petroquímicos básicos, plastificantes, resinas termofixas e resinas termoplásticas.

 

3. Crescimento nas importações: As importações diretas e indiretas cresceram, especialmente aquelas provenientes de países asiáticos que mantêm relações comerciais com a Rússia e se beneficiam de preços competitivos de petróleo e gás.

Importações de produtos químicos (diretas e indiretas) de países asiáticos, como Índia e China, aumentaram devido à sua associação com as exportações de petróleo e gás natural russos, em detrimento da demanda europeia. Além disso, novas capacidades de produção foram adicionadas aos mercados americano e chinês nos últimos meses, desequilibrando a oferta e a demanda por produtos químicos em um momento adverso para a economia nacional e internacional.

 

4. Impacto nos grupos com maior aumento nas importações: Dois dos grupos que tiveram maior aumento nas importações, resinas termoplásticas e petroquímicos básicos, também registraram queda no uso da capacidade instalada. As resinas termoplásticas operaram apenas a 67% em abril (contra cerca de 80% no mesmo período de 2022), e os petroquímicos básicos rodaram a 65% (contra 75% em igual período do ano anterior). A retirada do Regime Especial da Indústria Química (REIQ) sobre diversos grupos de produtos básicos do setor químico desde o ano passado influenciou o desempenho das resinas termoplásticas. O REIQ aguarda regulamentação no Ministério da Fazenda desde janeiro de 2023.

 

5. Concorrência chinesa e americana: A indústria química nacional está sofrendo impacto direto das indústrias chinesa e americana, que aumentaram sua capacidade de produção e reduziram seus custos de maneira significativa. Os EUA se beneficiaram do uso de gás de xisto, que está com preço de US$ 2,5/MMBTU, além de subsídios no valor de US$ 400 bilhões por meio do Inflation Reduction Act. China e Índia também estão se aproveitando do petróleo e do gás natural russo mais baratos devido a sanções comerciais e estão “agredindo” o mercado brasileiro com exportações.

 

É evidente que o Brasil não está protegendo sua indústria frente a esse movimento. Pelo contrário, os impostos foram aumentados e as medidas de defesa comercial estão sendo mantidas em níveis muito baixos diante desse cenário. O caso da Unigel é apenas a ponta do iceberg pois já existem problemas nas empresas Rhodia, Basf e Braskem. Se um “cracker” parar, um polo inteiro será afetado, e atualmente eles estão operando a apenas 65% da capacidade.

 

Fonte: https://www.paulogala.com.br/situacao-atual-do-setor-quimico-nacional-crise-a-vista/

 

RAPIDINHAS

1. Lula começou: Bolsonaro é “titica”; Bolsonaro respondeu: Lula é um jumento; Lula replicou: comparar Bolsonaro com um jumento "ofende o jegue" (adaptei para resumo). Que briga é essa, gente? Faz sentido o Presidente do Brasil puxar e manter acesa esta briga com o ex-presidente do Brasil já declarado inelegível pelo TSE? Que termos são estes? Que nível de disputa é esse? Descuido? Rancor incontido? Baixaria casual? NÃO! São dois espertalhões constrangendo uma Nação inteira a escolher eternamente entre um ou outro. 

2. Organizações GLOBO denunciando recordes na liberação de emendas “PIX”, o novo nome de fantasia do orçamento secreto. Chapuletada no Supremo Tribunal Federal que, meio atrasado, declarou inconstitucional a tal emenda do relator. A denúncia agora é a liberação, pelo governo Lula, de muitos bilhões de reais de forma opaca e obscura (perdoem o pleonasmo, bote obscuro nisso!). É o "mensalão 2.0" sendo cozinhado para uso escandalizado conveniente logo mais!

3. Estudo da consultoria Tendências, recém publicado na Folha de São Paulo,  faz projeções acerca dos ganhos por classe social no governo Lula 3, governo do PT 5, acrescento eu. Para variar, os ricos das classes A e B devem ganhar mais que o dobro do que as classes mais pobres. Juros para os barões, bolsa família para os pobres.

 
 

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