Nº 08 | DOMINGO, 03 DE SETEMBRO DE 2023 |
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O IBGE nos trouxe esta semana uma notícia boa e surpreendente: ao contrário de todas as expectativas, a economia brasileira cresceu 0,9% no segundo trimestre deste ano.
É muito digna de nota a resiliência de nossa economia, castigada pela maior taxa de juros do mundo e por uma decrescente taxa de poupança doméstica. Bem como, uma baixa taxa de investimento, ambas também registradas pelo IBGE.
Vamos lembrar o óbvio: um baixo investimento, hoje, em máquinas e equipamentos, significa, concretamente, estagnação econômica amanhã.
Os números, portanto, pedem atenção redobrada – o investimento caiu 2,6% em comparação com o mesmo período do ano passado (18,3% contra 17,2%), enquanto a taxa de poupança nacional caiu de 18,4% do PIB para críticos 16,9%. Sem dúvida, é muito bom olharmos para 3% de crescimento, e não mais para os 2% médios das últimas décadas. Mas é preciso também muita cautela e experiência para não nos deixarmos enganar por estatísticas.
Se radiografarmos os números vamos ver que, de novo, uns setores dão melhor contribuição do que outros, o que revela o caráter fragmentário deste crescimento. Ou seja, não se pode dizer que é uma “retomada do desenvolvimento”, como certamente a propaganda oficial se apressará em dizer.
Há uma novidade passageira, sem dúvida. Desta vez, a indústria vem positiva e os serviços também. A agropecuária, surpresa das surpresas, ainda se aguentou em discreta alta, apesar da base de comparação ser completamente atípica pois, como o assinante sabe, trouxe um primeiro trimestre inflado por uma colheita de soja, especialmente, recorde histórico.
Se o investimento permanecer em queda e os juros reais em elevação, como explicar este crescimento?
A hipótese mais realista é de que, de novo, foi o consumo das famílias o motor praticamente solitário, de ativação da atividade econômica e aqui, verdade seja dita, é ao governo que “devemos” tributar as principais razões práticas: aumento, ainda que discreto, do salário mínimo, reajuste de servidores e, principalmente, implantação dos novos valores do bolsa-família.
É o nacional consumismo que a intuição pessoal de Lula busca promover à falta de qualquer projeto estratégico para o Brasil.
Estatística, sabe como é, exige leitura para lá de complexa. E este 0,9% de crescimento no segundo trimestre representa uma queda forte em relação aos 1,8% de crescimento do PIB no primeiro trimestre.
Se for tendência, como suspeito, as boas notícias de hoje devem começar a rarear no trimestre em curso.
Claro que iniciativas novas podem e devem tentar quebrar esta história de estagnação econômica que é uma inerência do modelo imposto a nós por FHC e continuado com “casca e tudo” pelos CINCO governos do PT.
Não me cansarei de repetir que o Brasil é sede do mais profundo processo de destruição de indústrias da história do capitalismo mundial!
A indústria de transformação já foi quase 30% do PIB. Hoje está em menos de 12% (o equivalente ao que éramos em 1908!), e permanece em contínua queda!
Sem indústria, o passo gigantesco em direção ao ciclo econômico moderno, que são os serviços sofisticados da economia do conhecimento, não é possível!
A prostração ideológica que nos domina a todos, mas que criminosamente domina as expressões do pensamento progressista controladas pelo PT, e seu vazio de ideias, recusa entender que nosso problema é político e de concepção.
Vale lembrar fatos indiscutíveis. Em 1980, o Brasil era mais de 5 vezes maior do que a China em matéria de produção industrial. A Coreia do Sul, nesta data, não tinha praticamente indústria relevante nenhuma e o Brasil era, na data, uma das 15 maiores potências industriais do mundo, depois de partir quase do zero! |
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Atenção: Samuel Pessoa e, sendo verdade, para minha decepção, Edmar Bacha, parecem andar escrevendo tese revisionista que desmereceria a proeza nacional desenvolvimentista no Brasil. (Só ouvi um eco disso na imprensa. Vou procurar conhecer melhor a “tese”. E terei muito prazer em debatê-la).
O mais constrangedor de tudo isso é que esta trágica “obra” de desmonte da economia moderna do Brasil foi “iniciativa” da democracia eleitoral que temos.
Claro que não por causa dela. Mas por sua ocupação por sub-líderes incapazes de mover o País em direção a um novo projeto nacional de desenvolvimento e de confrontar as pesadas restrições internacionais, aqui dentro poderosamente representadas.
Entretanto, já é mais que tempo de debatermos a desagradável verdade que é este desmonte econômico. Por que brevemente, a persistir o caminho grosseiramente equivocado em que estamos, o Brasil poderá voltar aos tempos coloniais, com nossa economia completamente primarizada, ou seja, uma nação extrativista, agrícola e mineradora. A propósito, na indústria que deu sinais de “crescimento” nesta boa estatística do IBGE, vemos lá a “indústria” petroleira liderando o processo.
O problema é que este tipo de economia não gera a riqueza (nem os empregos) necessários ao suporte sustentável de um padrão de consumo moderno e sofisticado que nossa população aspira e tem direito de ter.
Milho, soja, boi, frango, minério de ferro e petróleo não pagam química fina, eletrônica, informática, novos materiais ..muito menos Inteligência Artificial, nanotecnologia, semicondutores, robótica, mecatrônica e satélite.
Os ciclos de alta de preços das commodities, volto a destacar, em tempos em que as notícias de esfriamento da economia chinesa vão se consolidando, mascaram esta fragilidade estrutural de nosso “modelo” econômico. Se estão em alta, nos oferecem a ilusão de saldos comerciais que pagam o “buraco” de quase U$ 130 bilhões de dólares na conta de manufaturados (esta é a diferença entre o que o Brasil industrial exporta e o que nosso País importa da indústria estrangeira).
Se caem, o buraco fica sem financiamento, nossa moeda se desvaloriza fortemente, esta desvalorização produz uma inflação de custo, e o Banco Central atira com taxas criminosas de juros para “conter” esta inflação como se ela fosse causada por excesso de demanda…
Com os juros loucamente altos em padrão global, nosso “mercado” é invadido por um fluxo de dólares especulativos (chamado aqui de “investimento direto estrangeiro”) e aí, com a oferta crescente de dólares, nossa moeda se valoriza, os índices de uma economia indexada ao dólar (IGPM, por exemplo) deflaciona os preços e temos a ilusão da “eficácia” da política malsã de nosso banco central. É O MODELO!
Que tragédia, que tristeza, que embuste!
O que está por trás de TODAS as civilizações exitosas no mundo, independentemente de sua imensa variedade institucional, são quatro fatores: alto nível de poupança nacional, coordenação estratégica entre governos empoderados, uma classe empresarial nacional convergente com a estratégia desenvolvimentista e a academia e, um notório investimento em gente!
Estamos mal, muito mal em todas estas premissas e, em certos aspectos , piorando.
A boa notícia é que somos um dos raríssimos países do mundo que tem as condições práticas para resolver de forma exemplar nossos problemas.
Nada físico nos impede. É um problema apenas político. Mas aqui surge a mais terrível das notícias: a política brasileira colapsou!
Por favor, falemos mais, muito mais, muito bem alto, de forma lúcida, corajosa e honesta sobre isso.
Nosso futuro nos cobra!
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ARCABOUÇO, DÉFICIT ZERO E SUPER RICOS – NÃO HÁ SAÍDA PELA TANGENTE |
O assinante desta newsletter já sabe, desde sempre, que o novo teto de gastos do PT, o chamado “arcabouço fiscal”, só funcionaria se houvesse um brutal e improvável (embora possível) aumento da arrecadação.
Baseado em números oficiais, falamos da necessidade do governo obter receitas adicionais de R$ 145 Bilhões (e contando, tive sempre a precaução de dizer conhecendo, como conheço bem, quem nos governa).
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Pois bem, uma entrevista recente de nossa ministra do planejamento nos dá um outro número: a necessidade de aumento das receitas agora seria de R$ 168 Bilhões de reais! É muita grana, gente, até no orçamento norte americano! Dobrando a aposta, o ministro Haddad manda para o congresso a proposta de orçamento com a previsão de ZERO déficit. Vale repetir aqui o óbvio: orçamento é uma LEI que estima TODAS AS RECEITAS que o governo planeja arrecadar, mas é a mesma lei que AUTORIZA TODAS AS DESPESAS que o governo vai poder realizar pelo ano inteiro de 2024.
Procurando ser delicado com nosso assinante, procurei uma tradução venial para o vulgar ditado popular: enquanto as despesas só podem ser realizadas como autorizadas explicitamente na lei orçamentária, as receitas estimadas por Haddad contam, de novo, com o ovo no recôndito da galinha. |
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Os caminhos anunciados até aqui, ainda que dessem certo, resultariam em valores muitíssimo distantes daqueles necessários e anunciados. Ou é mentira pura e simples para “inglês”, leia-se mercado, ver, ou o despreparo e fragilidade técnica na Fazenda são já assustadores.
Vamos lá: tributação da importação, pelo povão, através da internet; tributação da jogatina; tributação de rendimentos de fundos exclusivos no sistema financeiro nacional; e, tributação de rendimentos obtidos pela aplicação financeira em off shores - aquela montanha de dinheiro que os ricos brasileiros hospedam em paraísos fiscais, seja porque obtiveram estes dinheiros de forma ilegal e/ou criminosa ou seja para não pagar impostos.
Deixa eu relembrar aqui os números da mais grave concentração de renda do mundo (o Qatar não vale) depois de 35 anos de democracia eleitoral dominada pelos “social democratas” de Fernando Henrique ou, pior, pela “esquerda” dominada por Lula já em seu QUINTO mandato : entre nós, os 1% mais ricos acumulam 48,9% da riqueza privada nacional, pior – os 10% mais ricos são “donos” de 59% da renda do País. De baixo pra cima: os 50% mais pobres são “donos” de menos de 1% da renda nacional. Só para o assinante ter uma ideia, o país rico mais desigual do mundo são os Estados Unidos e lá o número é o seguinte: os 1% mais ricos acumulam 35% da fortuna norte-americana!
Pois bem, a contradição aqui é esta: esquecidos do que andaram fazendo “no sábado passado”, os petistas repetem a retórica eterna de taxar os super ricos porque a crise fiscal estrutural - que também ajudaram a produzir - ameaça desestabilizar seu projeto de poder eterno. Mas, de novo, tangenciam o essencial: A discussão de um novo projeto nacional de desenvolvimento que necessariamente passa por um novo e verdadeiro ARCABOUÇO FISCAL não para ser o novo teto de gastos do PT, mas para corrigir a regressividade brutal de nosso sistema tributário e a pirâmide invertida de concentração de privilégios nos altos escalões da burocracia brasileira (salários e previdência). Isto permitiria libertar o salário mínimo nosso de ser o mais baixo das Américas (só ganhamos da trágica Venezuela), sendo que a única razão para isto é o colapso das contas públicas.
Uma política de ganhos reais mais expressivos no salário mínimo já se provou ser a forma mais rápida e eficaz de combater as desigualdades, até que uma revolução educacional – que está muito longe de sequer ser proposta - permita ao nosso povo ganhar melhores salários e a nossa economia ganhar produtividade.
Enquanto isso, as iniciativas tecnicamente débeis de arrecadar nos oferecerão mais frustrações.
No momento em que escrevo, mais de R$ 80 Bilhões foram retirados dos fundos do baronato numa criminosa fuga movida à informação privilegiada (muito provável). Avisados de que a tributação de seus rendimentos viria por medida provisória (de eficácia instantânea) estes monstruosos valores foram sacados dos fundos alvos da nova tributação até a véspera da MP.
Num país minimamente sério haveria uma investigação para apurar possíveis crimes. Mas a própria concepção do tributo é completamente acanhada: a tributação dos rendimentos destes fundos já existe e é de 15%, só que apurado ao cabo do ano fiscal, na lógica do imposto de renda. Premido pelo curto prazo, Haddad REDUZ (vocês acreditam?) a incidência para 10% apenas, se o apurado rendimento for antecipado no semestre. Informação que todos temos: qualquer assalariado de classe média no Brasil paga 27,5% de imposto de renda na fonte (antecipado, portanto, mês a mês). Qual é a justiça nisso?
A cobrança de imposto sobre os rendimentos dos dinheiros em off shores também beira o ridículo, tendo em vista alguns fatos: o valor a ser arrecadado não seria sobre o estoque, mas sobre os valores de rendimentos de aplicações financeiras, e a base de incidência seria declaratória como no imposto de renda de nós mortais.
Pois bem, desde 2008 a inclinação dos juros no mundo, em dólar, tende a ser negativa descontada a inflação. Ou seja, muito pouco rendimento a tributar é a tendência. Muito pouca arrecadação se a base é o rendimento, como propõe Haddad.
Agora o explosivo: Qual a base de incidência desta tributação? Como identificar o contribuinte a ser cobrado? Da ultima vez que estudei isso, havia uma brutalíssima discrepância entre os registros do Banco Central e os registros da Receita Federal. Deve ter piorado, mas a diferença era de algo ao redor de 8 por 1.
Como o Banco Central centraliza (com pleonasmo) o câmbio, ele mantém o registro de todas as retiradas de dinheiro ganho no Brasil e transferido para o estrangeiro, mesmo para paraísos fiscais. Fala-se em mais de R$ 1 TRILHÃO!!!! Nada disso é ilegal se declarado à Receita Federal, como fizeram o presidente do Banco Central (!) de Lula, e os ministros da fazenda (!) de Michel Temer e de Bolsonaro e não fez um ministro da fazenda (!) de Dilma.
O problema é que menos de 10% dos valores conhecidos pelo Banco Central estão declarados à Receita Federal. Vão me desculpar os assinantes, mas a esculhambação aqui não será descrita com outra palavra. As autoridades centrais da economia brasileira guardam o seu lá fora para não pagar impostos (no mínimo) ou para se protegerem das oscilações no câmbio ou, no limite, para “regularizarem” seus ganhos criminosos.
E aí, Haddad, vamos consolidar os dados entre os órgãos do Ministério da Fazenda (Banco Central e Receita Federal)? Assim, e somente assim, podemos pensar em arrecadar algo de monta em relação ao tamanho do desafio arrecadatório.
Duvido muito que aconteça e que ninguém duvide de que esta, repito, esculhambação, também está entre as causas da criminosa autonomia do Banco Central imposta em plena pandemia, por votação remota, no acerto Bolsonaro, Guedes, Arthur Lira, e mantido exatinho como foi feito por eles por Lula e pelo PT.
Em tempo, Lula manda o tributo através de projeto de lei com urgência constitucional. Arthur Lira já anunciou que “não tem compromisso” com a iniciativa e acha que não é hora de colocar a “disputa de ricos contra pobres” em debate no Brasil. Isso apesar do loteamento do governo com figuras incríveis e dos recordes de liberação de emendas “pix”.
Vai desculpar de novo, estimado assinante: a esculhambação é geral!
Fôssemos rendidos à melhor literatura sobre o assunto e humildes às melhores práticas internacionais, a saída para sanear de forma sadia nossas contas, o que teria que ser feito, com a pressa de se viabilizar antes do fim do ano, (4 meses, Haddad, acorda!) seria: corte de 15% seletivo e criterioso nas despesas com renúncias fiscais de R$300 bilhões por ano; imposto de renda sobre lucros e dividendos distribuídos a pessoas físicas pelas empresas; progressividade maior no imposto de renda com uma alíquota menor para as primeiras faixas de renda e uma alíquota de 35% sobre os rendimentos dos 10% mais ricos; imposto sobre os patrimônios (não é sobre receita de aplicações) superiores a R$ 20 milhões de reais, com alíquota moderada progressiva entre 0,5% e 1,5%, com adaptação nas alíquotas de IOF na mesma proporção, para dissuadir a fuga de capitais, aumentar expressivamente a arrecadação do Imposto Territorial Rural apenas nas grandes propriedades; imposto sobre heranças grandes com alíquotas semelhantes à do imposto de renda; voltar a punir com pena de prisão (como é no mundo inteiro) o crime de sonegação dolosa.
São exemplos do que poderia ser feito se houvesse compromisso verdadeiro com qualquer mudança estrutural do País.
As sugestões aqui feitas, entre muitas outras que poderíamos fazer, resolveriam o problema com folga para aumentarmos a faixa de isenção do imposto de renda mas, especialmente para incrementar o investimento.
Isso tudo se o poder político brasileiro não estivesse, como está , sequestrado pelo pacto neoliberal rentista que nos transformou no maior paraíso fiscal de super ricos no mundo.
E a saúde fiscal aqui obtida não viria para gerar excedentes a serem drenados para os juros, que assim é hoje pela dependência enojante que o lulopetismo estabeleceu com o baronato financeiro brasileiro. Mas, sim, para o oposto: fazermos a nova independência do Brasil!
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TEMOS UMA QUESTÃO MILITAR POR TRATAR? |
O equívoco grosseiro que cometeu parte importante de nossas forças armadas - ao se deixar manipular por Bolsonaro - não pode ser varrido para debaixo do velho tapete, que nos faz tropeçar, na nossa sala republicana, ainda entulhada do lixo histórico chamado “questão militar”. |
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Igualmente não pode ser tratado, de um lado, com trêmula bajulação medrosa, ou, de outro, com fanfarronices de “vinditas” e ameaças.
Para ajudar a reflexão, vale começar por um triste e recente marco histórico. Ele ocorreu no início da campanha presidencial de 2018, quando o General Villas Boas, então comandante do exército, recebeu ostensivamente , em pleno quartel general em Brasília, o então candidato Jair Bolsonaro. |
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Como o gesto sofreu reparos de uma pequena parte da imprensa, o general resolveu escapar do micro escândalo com uma infelicidade retórica. Muito mais que um vacilo verbal, ela traduzia o sentimento de “tutores da nação” ao qual se atribuem os sucessores de Deodoro e Floriano, os dois históricos monarquistas que nos legaram a república.
O general Villas Boas, numa emenda tão ruim quanto o soneto, disse, então, com certa solenidade : “recebi Bolsonaro, mas estou disposto a receber, com igual cortesia, todos os outros candidatos”.
Privadamente me ligou, convidando-me para uma conversa, tentando repetir o gesto de “deferência” que tivera com o ex-tenente, expulso (na prática) do Exército. Eu disse, então, de forma elegante e respeitosa a ele, com quem sempre tive relacionamento cordial, que considerava a visita impertinente e que achava um erro o que ele havia feito.
Meio constrangido, perguntou-me então se eu aceitaria “tomar um café em sua residência pessoal”. Fui, e disse o que pensava, com a franqueza que procuro cultivar, apesar das incompreensões mil que já despertei por agir sempre assim. Em síntese, afirmei o que penso: o Brasil precisa de Forças Armadas profissionais , modernas tecnologicamente e submetidas a diretrizes elaboradas no plano nacional de defesa.
E que os critérios de formação e promoção tinham que ser modernizados de maneira a alcançar estes objetivos estratégicos e encerrar, de uma vez por todas, a atribuição auto referida de força de intervenção no universo político institucional do País.
Aproveitei para fazer uma pesada carga crítica contra Jair Bolsonaro, a quem conhecia de muito tempo e a quem vi praticando corrupção vulgar, roubando gasolina da verba de gabinete ou recebendo “por fora” salário de funcionários fantasmas.
Comentamos, igualmente, a corrupção generalizada promovida em todos os escalões da república por Lula e pelo PT. Saí de lá convencido de que tinha jogado minhas palavras fora, apesar de todas suas gentilezas e de ter me indicado um general de minha confiança como interlocutor, “para qualquer coisa”.
O Comandante Villas Boas estava convencido de que a “racionalidade” e a “decência “ da cúpula das forças armadas exerceriam uma espécie de tutela sobre Bolsonaro, só que este espertalhão se preparava para fazer o oposto: manipular as forças armadas para todos os seus objetivos escusos, até chegar ao ponto de usar um alto oficial para contrabandear joias, e seu pai, um general, para lavar o dinheiro.
Afora - e muito mais grave - envolver as forças armadas em seus delírios golpistas.
Lembro deste fato por muitas razões, mas, especialmente, por alguns episódios que estão novamente acontecendo agora , e que revelam a incapacidade dos “democratas” brasileiros de construir a nova institucionalidade, que é inadiável, frente ao zumbi da tal “questão militar”.
Primeiro, é totalmente raso e nada razoável que se faça uma legislação nova relativa à participação de militares em cargos políticos ou em processo eleitoral - que tem que ser proibida - e não se faça o mesmo em relação a outras corporações republicanas, tipo policiais de todas as categorias, ou juízes e procuradores, por exemplo.
O valor a ser protegido aqui é a República. Do contrário, veremos um juiz siderado pelos holofotes do poder julgar fora da lei para adquirir notoriedade eleitoral; policiais desconsiderarem a lei e o devido processo para agirem, seja como lideranças sindicais ilegais, promovendo motins e baderna e depois se elegerem na maré da emoção popular.
Enfim, todos nós doidamente sabemos do que se trata, nestas terras de "Moros" e "Dallagnois"…
Não tenham dúvidas, de que estes tipos fizeram muito mais mal à república do que os irresponsáveis militares bolsonaristas Pazuello ou Heleno. E olha que o mal que estes últimos fizeram é absurdamente extenso e gravíssimo!
Também a bajulação com que o PT tenta disfarçar seu profundo desprezo pelo militares (o governador do PT do Ceará, resolveu esta semana remover os restos mortais do marechal Castelo Branco, do mausoléu feito para este fim, no palácio da abolição, sabe-se lá para onde – há quem diga que nem sequer estão mais lá) definitivamente não é a saída.
Tampouco certo puxa-saquismo que tenta disfarçar um certo temor reverencial.
Por exemplo: agora está em debate um reajuste separado para os estamentos inferiores das estruturas militares. O “cala a boca” da vez seriam 9% de reajuste para eles.
Mais um erro e improviso grosseiros.
Se quisermos dar um tratamento sério ao que chamam de “questão militar” só há dois caminhos: mudanças na formação e nos critérios de promoção.
Na formação, é fundamental mudar a mentalidade dos militares de que cabe a eles a última palavra em termos de institucionalidade.
Trata-se de uma aberração, cujo sintoma mais grave é a dubiedade do artigo 142 da Constituição, que, em sua redação, teve a colaboração de mãos astutas e outras servis.
Precisamos adaptar nossa Constituição à democracia e à república. Nestas, o poder civil, democraticamente constituído, tem a palavra derradeira na construção dos rumos do País.
É claro que nesta tarefa qualquer estadista digno deste nome precisará e saberá ouvir a sociedade, por suas diversas bocas, inclusive, obviamente, as vozes encarregadas de dar eficácia à nossa soberania.
Revogue-se, portanto, o absurdo, e propositadamente dúbio, artigo 142 da Constituição de 1988!
Por outro lado, a ideia de que as forças armadas têm a tarefa -subsidiária que seja- de garantir a ordem interna é um legado da doutrina de segurança nacional, a nós imposta pela submissão do regime de 64 aos norte americanos.
Só que, na América do Norte, esta faculdade tutelar pura e simplesmente não existe. E olha que a diferença cultural que eles têm em relação aos seus militares é completamente diferente da nossa.
Lá não há uma família sequer, rica ou pobre, sem exceção, que não tenha, ao longo de gerações, um morto em combate, decorrente da intensiva e histórica vocação bélica deles.
Ali, de fato, as forças armadas são verdadeiramente a nação em armas!
Aqui, o último brasileiro que morreu numa guerra foi na 2ª Guerra Mundial, embora tenhamos perdido 11 patriotas na missão de paz no Haiti.
Ainda na formação é preciso rever os currículos das academias superiores, para que a história seja pacificada.
Não é possível que não possamos por um ponto final, historicamente responsável, ao que representou o golpe de estado de 1964.
Com equilíbrio, mas sem meias palavras, é preciso contar o que aconteceu, qual era o cenário internacional do auge da Guerra Fria.
Os arquivos da interferência norte-americana com dinheiro para políticos, manipulação da mídia, da igreja católica, e de forma lúcida, por uma minoria da cúpula militar brasileira já estão liberados ao conhecimento público na biblioteca do Congresso dos Estados Unidos.
Claro que a maioria do povo - e óbvio, também dos militares - estava na data legitimamente convencido de que “salvava” o Brasil dos “comunistas” e da corrupção, pois esta era a avassaladora onda de propaganda.
Só uma sólida crença na capacidade crítica de nossos novos oficiais será capaz de mudar o eixo central da formação deles.
Confrontados com a realidade histórica complexa da vida pública e dos valores internacionais, que eles formem sua opinião política afim com sua inteligência.
Mas ao decidirem pela vocação militar nobre, que sejam profissionais exemplares na prática dos fundamentos militares mais essenciais de hierarquia e disciplina.
Não será tarefa fácil, lembrando-me aqui dos “dogmas” da Escola Superior de Guerra (ESG). Mas é inadiável.
E deve ser feita em pleno diálogo com as lideranças militares lúcidas e autênticas.
Elas existem, apesar de certas aparência esquisitas, quase sempre ditadas pela vulgaridade ignorante, tosca e minoritária dos ativistas dos “clubes”.
Sobre os atuais critérios de promoção basta fazer uma comparação básica: como é possível que Caxias, Sampaio, Castelo Branco, Geisel, Euler Bentes tenham sido generais, a mesma patente de Pazuello, Braga Neto ou Mourão?
Não podemos, igualmente, tapar o céu com a peneira.
Será mero fruto do acaso, que quase todos os oficiais generais das três forças que entraram na onda bolsonarista tenham sido promovidos ao generalato pelos governos do PT?
É óbvio que algo muito errado também estava e está acontecendo no âmbito
das promoções. É preciso, de novo, sem qualquer espírito de vindita ou razão menor, rever os critérios de promoção, valorizando mais o profissionalismo, e o mérito intelectual, do que determinadas tradições, entre elas a familiar.
Sim, generais devem ser líderes não só em virtude do regulamento e de certa genealogia, mas pela hegemonia moral e intelectual que sejam capazes de exercer sobre as tropas a seu comando.
O País precisa disto, grave e urgentemente!
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🚀RAPIDINHAS (OU NEM TANTO) |
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1. Com indisfarçável tom eleitoral, o ministro da Fazenda da Argentina, e candidato situacionista à sucessão de Alberto Fernandes, anunciou, ao lado de Haddad, uma linha de crédito do Banco do Brasil para financiar importadores argentinos de produtos brasileiros. O valor inicial da oferta brasileira é de U$ 600 milhões de dólares, o equivalente a quase R$ 3 Bilhões! Todo mundo sabe, mas vale repetir, a Argentina passa hoje, de novo, por uma gravíssima crise de diversos aspectos mas, neste contexto, o aspecto mais grave é sua absoluta falta de capacidade de honrar seus pagamentos relativos às suas relações internacionais. Faltam dólares para tudo! Não se conhecem ainda os detalhes práticos em matéria de custos e prazos, especialmente, mas já se falou que a garantia ao Banco do Brasil será provida pela CAF (Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe) e este teria uma fração de reservas em YUAN, a moeda chinesa da Argentina como contra garantia. Então, na prática, é o seguinte: o exportador brasileiro vai receber seu pagamento direto do Banco do Brasil, mas se o importador argentino não pagar, a CAF paga ao Banco do Brasil. Interessante a operação. Vou acompanhar porque outras deste tipo, especialmente motivadas pela vontade de Lula de dar uma mãozinha aos desastrados governantes Argentinos de hoje, tem tudo para não dar certo.
2. Uma imensa quantidade de municípios brasileiros, com o apoio de suas entidades nacionais, paralisou no último dia 30 todos os serviços não essenciais, entre eles as aulas e as consultas médicas. Tal iniciativa gravíssima nos pede uma atenção que não foi dada devidamente, penso eu, pela mídia comercial brasileira. Como pode um lockout de administração pública? O que isto significa? O que houve para que tal gesto desesperado tenha sido praticado por prefeitos municipais? É simples de entender: a maior parte dos municípios menores depende vitalmente de transferências constitucionais para pagar suas despesas centrais. Para que ninguém pense que é uma súplica “por mais dinheiro”, entendamos que transferências constitucionais são cotas de arrecadação federal (imposto de renda e IPI principalmente) e estaduais (ICMS) determinadas a serem repassadas aos municípios. Fazem parte de sua receita corrente. Pois bem, no plano federal as transferências caíram 30% em julho e 20% em agosto. É uma “pancada” sem precedentes que eu conheça. Perda semelhante está acontecendo nas transferências com base no ICMS. Na ponta da vida real, eis o que está acontecendo: renúncias fiscais promovidas no governo federal e atividade econômica débil são as explicações para esta queda. De novo o clamor por um projeto nacional, que redefina o pacto federativo dilacerado, se impõe. E quase todos os prefeitos votaram sem considerar o que importa… De qualquer forma fica aqui minha solidariedade!
3. O diretório nacional do PT soltou recentemente uma nota que é uma pérola do petismo em estado bruto: lança descabidamente a candidatura de Lula à reeleição para um SEXTO mandato, mal inteirados 8 meses de governo. Dá, também, um pito público num ministro do Supremo Tribunal Federal, Zanin, como se fosse dele, PT, um reles filiado a dever seus julgados ao que pensa a burocracia petista ser correto. Para completar, autoriza alianças do PT com o PL de Bolsonaro, se os novos “companheiros” se dispuserem a apoiar a reeleição do onipotente Luís Inácio. Nenhuma surpresa para mim.
4. Outro grave escândalo no capitalismo à brasileira: a empresa 123 Milhas deu o cano em milhares de clientes que acreditaram na sua fraudulenta pirâmide de venda de pacotes turísticos. E, como acabam fazendo os canalhas do capitalismo à brasileira, procurou refúgio no judiciário pedindo e obtendo ligeirinho uma recuperação judicial que deixa seus milhares de clientes e fornecedores sem ter a quem recorrer, mesmo que seja um casal de idosos pobres que pôs sua pequena poupança numa viagem de reafirmação dos votos de seu casamento. O que todos precisamos saber, entretanto, indica a conduta criminosa dos donos da empresa: o jornalista Lauro Jardim, e somente ele que eu tenha visto, trouxe a informação que faz dos caras da 123 Milhas larápios a serem representados pelo Ministério Público. Vocês não vão acreditar (!). Os donos da 123 Milhas, apenas 9 meses atrás, criaram uma empresa de fachada em nome de Augusto e Ramiro Julio Soares Madureira - a AMRM Holding - e, PASMEM, puseram esta empresa deles mesmos na lista dos CREDORES com valores a receber no processo de recuperação judicial agasalhado pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais. O capital social da tal “holding” é de apenas R$ 1 mil reais e não há na contabilidade da 123 MILHAS nenhum registro de que origem teria um “DEBITO” de nada menos do que R$ 82 MILHÕES de reais deles consigo mesmo.
Vocês entenderam, né? As Lojas americanas fazendo escola (estou terminando o estudo da complexa e monstruosa fraude deles para trazer aqui. Mas vou repetir: os donos da 123 MILHAS fraudaram milhares de pessoas, conseguiram rapidinho uma recuperação judicial e inscreveram na lista de credores uma empresa de araque deles mesmos para cobrar de si próprios R$82 milhões de reais. Se eu fosse do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, determinaria a prisão em flagrante dos caras… |
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