Nº 09 | DOMINGO, 10 DE SETEMBRO DE 2023 |
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Somos mesmo uma nação independente?
De minha varanda em Fortaleza, onde moro, assisti ao desfile do 7 de setembro, procurando interessar meu caçula Gael muito mais na carga simbólica daquele aparato, do que na possível beleza da ordem unida das bandas militares.
Para não quebrar a fantasia compartilhada por pai e filho, pensei, mas fiquei em silêncio, na singeleza exótica do acervo exibido debaixo de nossa janela - em especial os muitos carros pobres que teimavam em desfilar, desafiando as mecânicas do tempo e dos seus carcomidos motores.
Por um momento, invejei as imagens de comemorações similares na China, na França, na Rússia ou nos Estados Unidos. Pelas tantas Gael, em sua doçura, me perguntou por que eu estava chorando. Pois é, o bobo aqui ainda se emociona com essas coisas de pátria, Brasil, independência, nação, povo, hinos e preocupações mil.
Me veio então à mente, ao pensar nas manipulações que já se fez em demasia na história humana – e muito recentemente entre nós –, a expressão cínica e doída do intelectual britânico Samuel Johnson para quem “o patriotismo é o último refúgio do canalha”. Johnson queria dizer quanto é fácil – e como repetidamente se tem feito – a manipulação do genuíno amor à pátria por canalhas a serviço de si mesmos.
Por isto, nesta newsletter, me deu vontade de situar aqui e agora uma reflexão sobre a independência do Brasil, oficialmente comemorada no 7 de Setembro.
Leciona-se para nosso povo, a partir da pré-escola, que a independência brasileira foi uma proclamação pacífica feita por Pedro – príncipe regente do Brasil por ser filho do rei de Portugal D.João VI – às margens do riacho do Ipiranga, hoje poluído e submerso, nas cercanias do que é o centro expandido da grande cidade de São Paulo.
Pedro Américo, o grande e controverso pintor paraibano, cuidou de dar uma imagem épica ao gesto de proclamação de nossa independência, em um tempo em que as “selfies” não eram ainda possíveis (ainda bem).
E a frase “Independência ou morte”, por alguns questionada se de fato proferida, parecia expressar um temor de que a proclamação da ruptura com Portugal pudesse exigir confrontações e riscos de “morte”, se por acaso o gesto político redentor fosse desacatado pela metrópole contra a colônia rebelde.
Não foi bem assim, salvo sangrentas batalhas, principalmente na Bahia, e alguns conflitos no Pará, Maranhão e Província Cisplatina. Mas isso não significa que o movimento de separação tenha sido curto, pacífico e datado, com mês e dia definidos.
Apenas duas gerações atrás do simbólico 7 de Setembro, Dona Maria I, avó do Pedro que se auto proclamaria Imperador, tinha mandado executar Tiradentes, com requintes de crueldade terrorista.
Antes e depois do mártir mais famoso, muita gente deu sua vida pela afirmação da soberania brasileira. Infelizmente, a historiografia oficial brasileira tem a tendência de particularizar em poucas e únicas pessoas o resultado de lutas coletivas de muito sacrifício e mortes.
Veja-se, ficou famosa como marco anunciador, a frase oportunista, proferida por D. João VI um ano antes do 7/22: “Pedro, lança mão desta coroa antes que um aventureiro o faça”! Mas, na verdade, os movimentos de independência duraram quase dois séculos, se levarmos em conta a luta “nacional” pela expulsão dos holandeses em 1638! |
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E, nos seus desdobramentos, muita gente morreu, além dos heróis mártires Felipe Camarão, Felipe Santos e Tiradentes.
A partir do final do século 18, esses movimentos passaram a replicar, entre nós, o ideal libertário que funda a Idade Moderna, a partir das revoluções vitoriosas na França e na independência norte-americana (1789 e 1776, respectivamente). É fundamental lembrar que, além de independência, se pedia igualmente a República, e muitas vozes também clamavam o fim da escravidão.
Não quero desmerecer o papel histórico de Pedro I, mas as comemorações de nossa independência precisam valorar com muito maior centralidade os heróis pioneiros e, especialmente, o esforço coletivo.
Em verdade esta atitude personalista e usurpadora das elites, desde sempre, e hoje com particular interesse, é uma marca de nosso atraso.
A escravidão e o itinerário de sua “abolição” são o exemplo mais cruel em nossa de-formação histórica.
E a historiografia oficial desconsidera praticamente quantos foram sacrificados na luta pelo fim do nosso maior pecado original – fonte de muitas tragédias contemporâneas – para celebrar a princesa Isabel; embora seja histórico que Pedro II, tendo simpatia pela causa abolicionista, nunca correu qualquer risco político de enfrentar a oligarquia rural escravista dominante.
Qualquer semelhança com a atualidade Lulopetista não é, senão, nossa história se repetindo como farsa trágica.
Comecei este texto com vontade de estender as festas e homenagens deste 7 de setembro – que felizmente ocorreram em paz e sem arroubos de patriotismo picareta que caracterizaram o período Bolsonaro – a quantos anônimos brasileiros, heróis sacrificados na causa de fundação da Nação Brasileira.
Mas comecei, também, com a viva intenção de manifestar a provocação que não ousa calar: somos mesmo uma nação independente?
Creio, firmemente, que há uma nova e verdadeira causa de independência e soberania nacionais por ser lutada. Creio, firmemente, que a causa abolicionista tomou uma outra cara entre nós, a exigir a denúncia de novas formas de escravidão.
E sustento com um conjunto de perguntas destinadas à sua inteligência, meu caro assinante: é independente uma nação que depende (!) de outras em elementos essenciais tais como remédios, eletrônica, informática, satélites, GPS, mecânica, meios de diagnóstico médico, materiais, telecomunicações, fertilizantes, implementos agrícolas, defensivos, semicondutores, mísseis, munição…?
Respeita o trabalho não escravizado uma nação que obriga quase metade de sua força de trabalho à mais selvagem informalidade, o que representa jornadas semanais de até 70 horas, sem direito a férias, descanso semanal, 13º salário e, especialmente proteção previdenciária na velhice?
Para encerrar, permita-me ironizar afirmando que talvez não exista melhor metáfora da dúvida sobre o que é verdadeiro, ou falso, na nossa independência, do que o próprio quadro de Pedro Américo.
Lembro, para os que não sabem, que ele é até hoje acusado, sem prova definitiva, de ser plágio de um quadro do pintor francês Jean-Louis Ernest Meissonier.
E deixo, portanto, o enigma: a realidade imita a cópia ou a própria cópia é a realidade? |
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"1807, Friedland", de Jean-Louis Ernest Meissonier |
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"O Grito do Ipiranga", de Pedro Américo |
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O ESC NDALO DAS LOJAS AMERICANAS – CAPITALISMO À BRASILEIRA – Parte 1 |
Dona Maria, 74 anos, tinha uma poupança de R$ 16 mil herdada pela morte de seu marido. Nunca tinha visto tanto dinheiro junto e não sabia o que fazer com ele. O gerente do banco onde estava o saldo, lhe convenceu a aplicar num tal de fundo de ações em que – veja bem dona Maria – todo ano, nos últimos dez anos, quem tinha estas ações ganhou “filhotes”, ou seja um dinheirinho a mais do que a poupança, que os “ome” chamam de dividendos. "A senhora vai ser sócia das Lojas Americanas”, completou, de boa fé, o gerente.
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Dona Maria conhecia da televisão as Lojas Americanas; concordou e assinou a “aplicação”. Tempos depois ouviu o “caso das Americanas” no rádio e correu ao banco para saber do “acontecido”. O gerente até tentou explicar uma tal de recuperação judicial, outro tal de risco sacado, e tinha também um outro tal de crédito de VPC. Ela não entendeu nada! Mas, muito constrangido, o gerente lhe disse que, agora, ela só tinha de saldo R$ 1.014,75, dos R$ 16 mil que seu amado marido lhe deixou após uma vida de sacrifício.
Como Dona Maria, outros mais de 150 mil acionistas viram seu patrimônio ser pulverizado nesta proporção de 16 para 1 quando explodiu o inacreditável escândalo da Lojas Americanas: o maior estelionato da história do capitalismo à brasileira – caracterizado por muita fraude e muita impunidade – e um dos maiores escândalos da história do capitalismo mundial – e olha que sei bem dos valores das mega fraudes da crise de 2008 nos Estados Unidos. |
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Nós estamos falando de um escândalo de mais de R$ 40 BILHÕES ou, em dólares, quase US$ 10 BILHÕES! É uma fraude praticada de forma lúcida e coletiva por cerca de UMA DÉCADA INTEIRA (!), o que, de plano, denuncia a grave conivência de TODAS as estruturas de controle e fiscalização internas à companhia e, principalmente, externas.
Com a quase total conivência da imprensa brasileira, este explosivo escândalo está sendo varrido para baixo do tapete. Começa por chamar a imaginosa, mas nem por isto pouco grosseira, fraude, de “inconsistência contábil”. É muita pouca vergonha!
O que esta gente quer entupir nossa inteligência é com a ideia de que um rombo de R$ 40 bilhões aconteceu por “erros de contabilidade”. Mas, mais grave, a mesma imprensa que se escandaliza com a roubalheira dos políticos - grande mesmo e em elevação -, está, agora, fazendo o trabalho sujo de preparar o terreno da impunidade total dos grandes tubarões que imaginaram, e praticaram, continuadamente esta imensa fraude!
Ou alguém minimamente inteligente acredita que um rombo desta proporção poderia ter sido CONTINUADAMENTE praticado sem o absoluto conhecimento dos prepostos e dos “donos” e maiores beneficiários do estelionato escandaloso? Fossem R$ 40 milhões de rombo, já seria muitíssimo dinheiro, gente, mas nós estamos falando de R$ 40 BILHÕES!
Não trago este assunto aqui por apego maior a qualquer aspecto policial que, certamente num país minimamente sério, levaria muitos “barões” para a cadeia. É que há gravíssimas questões de ordem pública envolvidas no episódio e funestas consequências para o Brasil, se a impunidade e os buracos regulatórios e institucionais não sofrerem profundas mudanças a partir das amargas sequelas que o comportamento mafioso dos envolvidos causou ao país.
Além dos acionistas gravemente lesados, há também 9.713 credores das Lojas Americanas habilitados na lista do pedido de recuperação judicial. Entre eles bancos e banqueiros, que já se aquietaram depois de, nas primeiras horas após o anúncio da “inconsistência contábil” (tenham a santa paciência), fazerem um grande barulho!
Mas a imensa maioria destes credores caloteados é de pequenos e médios fornecedores, que poderão ir à falência, a depender da proporção do calote sofrido e dos critérios definidos pela justiça para a prioridade na fila dos recebimentos. Se deixar, os grandões, já acertados “por fora”, levam tudo!
Há também aspectos trabalhistas bem sensíveis a considerar em relação aos 43.123 trabalhadores que as Lojas Americanas anunciavam ter. Mais de 2 mil já foram demitidos e não se sabe quantos mais ainda o serão no processo de “reestruturação” da empresa.
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[AMERICANAS] A DESMORALIZAÇÃO DO MERCADO DE CAPITAIS |
Uma fraude destas proporções, e desta repercussão na vida de tanta gente diretamente - a despeito do silêncio mais do que cúmplice da maior parte da mídia - tem uma repercussão ainda maior e mais grave pelas consequências ao longo de muitos anos, que causa na contínua desmoralização do mercado de capitais, que só vive e sobrevive na base da confiança dos aplicadores. Em um país em que o governo pratica consistentemente, há décadas, a maior taxa de juros do mundo, outra forma de financiamento da economia, fora empréstimos inviáveis, é o capital de risco mobilizado pelo mercado de capitais e baseado na poupança popular. |
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Se alguém quiser um resumo, por este aspecto, de porque a pujança da economia norte-americana ou europeia, por exemplo, aqui está a resposta: ali se desenvolveu um sólido mercado de capitais em que uma boa ideia nova, ou uma empresa bem administrada com potencial de expandir-se, não vão a banco pedir dinheiro emprestado, oferecer garantias que muitas vezes não têm, ou, pior, entregar parte robusta de seus ganhos aos bancos através de juros. Estes empreendedores têm a possiblidade farta de obter financiamento através da participação dos poupadores no capital das empresas, tornando-se, delas, verdadeiros sócios.
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Em, meu último livro PROJETO NACIONAL – O Dever da Esperança, brinco que por esta Karl Marx não esperava: um dos maiores estoques de poupança financeira associada ao investimento produtivo do mundo capitalista moderno, são os fundos de pensões e aposentadorias de categorias de trabalhadores. Sim, os trabalhadores recolhem para seus fundos de aposentadoria e, estes, ao invés de aplicarem na especulação financeira estéril que não produz um pão ou não gera um emprego, viram sócios capitalistas da expansão da economia real e extraem desta associação fecunda, o ganho extra para melhorar os valores de suas aposentadorias ou tapar eventuais buracos atuariais que desequilibrem seus fundos de pensão.
Por óbvio, esta mecânica só funciona baseado em duas pernas muito sólidas: confiança dos poupadores de que seu dinheiro não será malversado, e uma sólida regulação e fiscalização públicas! Desnecessário dizer dizer que tanto uma quanto a outra perna só serão sólidas se houver a certeza da punição severa das potenciais fraudes que destroem o sistema.
Pois bem, entre nós brasileiros não existe simplesmente, de forma minimamente relevante, este mecanismo moderno de financiamento empresarial. E não existe porque as duas pernas que o sustentariam não funcionam.
Como confiar em um sistema que deixa passar POR MAIS DE DEZ ANOS uma fraude como a que os “donos” das Lojas Americanas praticaram? Como acreditar em um modelo de poupança popular associada ao investimento produtivo, se a legislação é deliberadamente frouxa com mafiosos do mercado de capitais e, pior ainda, se as instituições encarregadas de vigiar a sanidade do sistema são corrompidas pelas máfias acobertadas pela prevalência do baronato e seu suborno das instâncias centrais do poder político?
O depoimento do presidente da CVM sobre o assunto Lojas Americanas é uma pérola de omissão e de “delicadezas” que nenhum pobre, nem de longe, assiste nas delegacias de polícia Brasil afora. Este é o órgão federal encarregado de prevenir e punir as irregularidades cometidas no mercado de capitais. A bolsa de valores de São Paulo – entidade privada, porém regulada – tem mecanismos de “compliance”, de boas práticas, digamos assim, todas elas violadas no caso das Americanas. E a promessa de providências aguarda só o “esquecimento”, já em avançadas tratativas pela grande imprensa, para que tudo “acabe em pizza”. E, assim, mata-se o já semi-morto mercado de capitais no Brasil e o imenso potencial de progresso que temos desperdiçado por causa destes “cavalheiros” e dos governos sem moral que temos tido e temos hoje.
A propósito, estou pesquisando o assunto lojas americanas há tempo e não conheço nenhuma iniciativa ou opinião mais forte e objetiva de Lula sobre o tema. Em uma de suas passagens pelo Brasil, era muito bom que o PT pedisse uma cobrança de Lula sobre as instituições brasileiras ligadas ao assunto, no mínimo aquelas sob sua autoridade: CVM e Polícia Federal. O silêncio e a omissão cheiram muito mal e dizem muita coisa! |
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[AMERICANAS] COMO FORAM AS FRAUDES – Uma tentativa de explicar a trama
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Uma empresa como as Lojas Americanas é, antes de mais nada, um grande canal de comercialização. Antes, através de lojas físicas e, nos últimos anos , também, através da internet, no chamado comércio eletrônico. Quanto melhor administrada uma empresa assim, menos estoques ela mantém. Idealmente, ela vende, recebe o preço e entrega depois. Assim, a mercadoria circularia no conceito “just in time”. Com esta prática, a empresa diminui ao máximo a necessidade de capital de giro.
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Pense em uma pequena mercearia da periferia: toda mercadoria que está nas prateleiras tem que já ter sido paga aos fornecedores e, para isto, o pequeno empresário fica com seu capital “estocado” nas prateleiras até vender e receber. Se tiver capital próprio, deixa de ganhar na aplicação financeira deste dinheiro e, se não tiver capital próprio, vai pagar juros a quem lhe emprestar o dinheiro para comprar seu estoque. Na realidade de juros brasileira, tanto uma coisa quanto a outra são prejuízo que, muitas vezes, não cobrem o lucro do negócio.
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Em síntese é o que mata muito cedo a esmagadora maioria dos pequenos negócios no Brasil.
Mas as Lojas Americanas, antes de virar uma escandalosa negociata, era um imenso negócio. E a raiz da imaginosa fraude está nesta lógica do relacionamento entre o canal de comercialização e os fornecedores.
Claro que só seria possível o trambique se entrassem na trama os bancos!
Então a coisa se dava assim – deixa eu repetir: HÁ MAIS DE DEZ ANOS, as Lojas Americanas compravam fiado dos fornecedores (180 dias) e davam a eles acesso a uma linha de crédito que ela negociava com os bancos, chamada de “risco sacado”. O que era isto: com um papel das Lojas Americanas que documentava a venda, o fornecedor ia ao banco indicado pelas Americanas e recebia o valor que ela lhe devia. O banco, por sua vez, munido deste papel emitido pelas Americanas, cobrava dela, nos prazos que ela negociara anteriormente e, chave de inteligência do estelionato, acrescentando uma conta de juros que vinha a ser a remuneração do banco. Ora, meu caro assinante, pense comigo: esta conta de juros deveria entrar no passivo (contas a pagar) ou no ativo (valores a receber) na contabilidade das lojas americanas? Só os controladores e seus prepostos, além das auditorias “independentes” KPMG e PricewaterhouseCoopers, não viram que a conta com juros devidos eram um passivo, uma DÍVIDA e não um ATIVO, um patrimônio das Lojas Americanas.
Assim, contabilizando crescentes valores de dívida como se fossem resultados positivos, o balanço da empresa inflava artificialmente os lucros a cada ano. E estes lucros falsificados eram a base para dois tipos de ganhos, em claro conluio um com o outro: de um lado estes lucros falsos eram convertidos em dividendos a serem distribuídos aos acionistas na proporção de suas participações no capital da empresa - na maior parte desta década a esmagadora maioria do capital remunerado era pertencente aos três “donos” das Americanas, os celebrados capitalistas à brasileira, Jorge Paulo Lemann, Beto Sicupira e Marcel Telles, da 3G participações Ltda, que você, assinante, já sabe, viraram os “controladores” da Eletrobrás com apenas 1,51% do capital - e o outro “Manoel ganhão” da história são os membros da diretoria das Lojas Americanas, nomeados e subordinado dos três primeiros que, além dos salários gigantescos, ganharam, estes anos todos, bonificações lastreadas nos lucros falsos que o trambique continuado registrava na contabilidade fajuta.
Já vimos quem perdeu (trabalhadores, acionistas minoritários e credores). Agora vimos quem ganhou muito com o estelionato: a diretoria e os controladores. Falta vermos valores, mudanças na constituição do capital controlador, desfazimentos de ações na antevéspera do escândalo, examinar a conduta dolosa dos envolvidos, pesquisarmos a conduta das auditorias internas e das externas “independentes”. Também é imperativo olharmos as idas e vindas da Justiça sobre o assunto, e uma estarrecedora informação de que o Banco Central tinha registrada toda a base do estelionato. Por fim, falta também analisar a atitude inexplicável de pelo menos dois bancos: Itaú e Santander. Mas veremos tudo isso na próxima edição desta newsletter. |
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PODER JUDICIÁRIO NAS MANCHETES – BOM OU MAL SINAL? |
Mais uma vez, o que é muito pouco usual no mundo, o judiciário brasileiro praticamente dominou o noticiário nacional com o estardalhaço das manchetes. Em um dia, desconsiderando o ditado da constituição em vigor, o Presidente Lula defende que o voto dos ministros do Supremo Tribunal Federal seja secreto, no outro, em uma coincidência constrangedora, o Ministro Dias Toffoli anuncia uma decisão monocrática (decisão de um juíz só) determinando a nulidade de todas as provas produzidas na Operação Lava Jato, a partir do envolvimento da mega empreiteira Odebrecht, mesmo e especialmente as provas produzidas a partir de delações premiadas e de acordos de leniência.
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Não faltaram, na decisão, juízos de valor bastante desairosos (é o novo!) sobre os verdugos condutores da operação no Ministério Público e no judiciário.
Quem me acompanha não tem nenhuma surpresa com relação ao destino da tal Operação Lava Jato. Entregues ao estrelismo, embriagados de vaidade e ambições políticas espúrias, Sérgio Moro e sua troupe de procuradores irresponsáveis, Dallagnol power point à frente, semearam todas estas nulidades agora declaradas, afora outras tantas já declaradas, ou por serem, logo mais, declaradas também. |
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Vejam a sequência de vídeos em que tento advertir já a partir de 2016 (!) o que suas excelências estavam fazendo: produzindo a impunidade de uma malta de notórios corruptos para o desconsolo das maiorias populares excitadas pelo justiçamento produzido pela leviandade de nossa grande mídia.
Viver em sociedade só é possível se houver uma crença de que regras determinarão os limites dos direito/deveres de cada um de nós. E boa parte destas regras estão pacificadas pela dores e êxitos das sociedades mais amadurecidas.
Mesmo na periferia do mundo dito civilizado, copiamos aqui em nossas regras (das mais importantes, como a Constituição, até as mais simples, como os regramento do processo penal).
Não se espera do povo, nem seria justo dele exigir isto, que sua justa indignação com a roubalheira generalizada seja anestesiada com a ponderação sóbria de que TODOS, TODOS MESMO, têm direito ao ”devido processo legal”, à presunção de inocência, ao contraditório acompanhado de forma isenta pelo Magistrado, e a tarefa devida pelos acusadores de provar suas acusações de forma lícita (tortura de qualquer espécie invalida a prova no melhor direito).
Aqui o que se está a proteger não são os meliantes engravatados e poderosos, presidentes, ou batedores de carteira. Ao contrário, aqui o que se está protegendo são os inocentes diante da prepotência potencial do Estado e das autoridades.
Ninguém pode ser maior que a lei. Não faltam, no entanto, argumentos autoritários para demonstrar o caráter “ingênuo” desse regramento liberal. Mas suas falhas são minúsculas diante do bem maior amplamente demonstrado na experiência humana, especialmente diante das tragédias autoritárias recentes no mundo (nazifascismo ou, entre nós, nos abusos do regime de 64).
Aliás, conforme ensina a Bíblia, vemos no julgamento de Jesus Cristo um itinerário sem provas, empurrado por preconceito e perseguição, e o imenso perigo de se dar a multidões enfurecidas a palavra final em julgamentos que deveriam ser serenos e disciplinados à lei: entre Jesus inocente e Barrabás, o verdadeiro marginal, “o povo” desorientado pelos poderosos escolheu Barrabás.
Isso dito, tenhamos clareza todos: a sociedade brasileira foi enganada toda pelo despotismo pretensamente esclarecido da chamada república de Curitiba, sendo importante registar que a linda capital do Paraná nada tem a ver com o grupinho fascistóide que ali se instalou em parte da Justiça Federal.
Este ovinho de serpente está disseminado no Brasil inteiro! Mas esta enganação geral não teria acontecido não fora a leviandade com que a grande mídia “novelizou" o assunto! O descuido irresponsável com que excitou o aplauso a arbitrariedades vendidas como “punição”.
Aí está o resultado, “xerifes” da mídia: corruptos de alta linhagem, todos a caminho da impunidade. O próximo passo é cobrarem dos cofres públicos pesados valores indenizatórios, uma vez que a volta de todos às mais altas esferas de poder já começou!
Definitivamente nosso problema não é dar caráter privado a votos de ministros, como a maior vítima e, ao mesmo tempo, maior beneficiado pela impunidade e pelas arbitrariedades produzidas por Moro, Lula, falou.
O mundo também já tem práticas pacificadas sobre o assunto: sobriedade dos magistrados, circunscreverem-se a falar nos autos, e distanciamento crítico dos poderosos, inclusive da mídia, são um excelente começo, ou de nada adiantam quaisquer regras.
Pode ser que alguém me surpreenda com notícia oposta, mas TV JUSTIÇA, transmitindo ao vivo debates entre ministros em julgamentos na mais alta corte de justiça do País, só aqui em Macunaíma!
Haverá um dia em que não será mais verdade a dura frase de Rui Barbosa, para quem o Judiciário "é o poder que mais tem faltado à República”!
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APROFUNDA-SE A ADESÃO DO GOVERNO AO CENTRÃO OU A ARMADILHA DO FALSO IDENTITARISMO |
Teve contornos de crueldade a humilhante demissão de nossa campeã Ana Moser do Ministério dos Esportes, no aprofundamento da adesão do governo Lula ao centrão, pelo menos no sentido de suas práticas fisiológicas e corruptas. |
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Depois de afirmar pessoalmente a ela, poucos dias atrás, que permaneceria no governo, Lula volta atrás e nomeia um bolsonarista de carteirinha para o cargo. Para começar, o novo indicado não entende patavina de esporte e, para acabar de esculhambar geral, anuncia-se a criação de uma secretaria especial da jogatina, no mesmo Ministério, no sentido de “adoçá-lo” ao gosto do novo freguês, com parte das verbas que Haddad pretende cobrar no esforço de eliminar o déficit em 2024.
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Ana Moser já tinha aberto uma polêmica respeitável sobre ser ou não games, jogos eletrônicos, esporte. Agora o governo Lula atesta que jogo de azar e aposta, neste grande cassino em que se transformou o Brasil, é esporte! Já não estão cuidando nem mesmo de guardar as aparências!
Já houve o mesmo desapreço de Lula à questão do turismo, uma das atividades econômicas de maior potencial não explorado profissionalmente no Brasil. E ocupado por quem não entende bulhufas do assunto também, transformando ambos em meros balcões para carimbar emendas totalmente malcheirosas.
Um aspecto, entretanto, vai confirmando aquilo que estou cansado de saber: a convicção identitarista, ou seja, o compromisso de Lula com a causa das minorias ou, como é o caso do feminismo, com maiorias minorizadas, é tão verdadeiro quanto uma cédula de três reais: só vale como retórica eleitoral.
Com a demissão de Ana Moser, é a segunda mulher a ser retirada do ministério em um governo que tem, agora, menos de 24% de mulheres em posição de mando, como mostra O Globo. Diga-se, de passagem, é um número menor do que do primeiro ano do governo misógino de Jair Bolsonaro, de trágica memória, como mostra gráfico da ministra lulista Esther Dweck, que recentemente tentou defender o indefensável.
Mas o que mais me chama a atenção, para além desta solidariedade à ex-ministra, é como o PT e seus puxadinhos atuam para corromper Lula. Todo mundo desta turma relativizando o gesto e passando pano para a degradação geral, como se uma tal de “governabilidade” a tudo justificasse.
Isso é mentira! Isso é fisiologia, é corrupção, como nós sempre denunciamos nos outros, quando nossos adversários.
Reunir diferentes grupos políticos, compor, negociar, partilhar o governo com outras forças é mais do que natural, é necessário. A questão não é esta, entretanto.
Qual é a proposta de mudança a merecer estas concessões todas? Nenhuma. O que está em debate é uma agenda reacionária “deles” e não “nossa”, tipo o teto de gastos do PT.
Participação não pode ser loteamento, transformando o governo num arquipélago de duplas ou triplas lealdades em que o Presidente da República é apenas o testa de ferro do cada um por si da roubalheira geral!
Pergunta que não quer calar: o que que resta do discurso de esquerda, fora da conversa mole do PT e dos seus puxadinhos, na prática deste governo?
Perguntar não deveria ofender… |
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1. Para minha grande e agradável surpresa, a Câmara dos Deputados aprovou esta semana, em primeira votação, outra proposta que apresentei durante a última campanha presidencial, para impor limites aos juros absurdos dos cartões de crédito. Se a nova lei for aprovada em definitivo, teremos um primeiro e único freio aos abusos criminosos dos juros cobrados pelo cartel dos cartões de credito no chamado “credito rotativo”. Como o assinante sabe, eles podem chegar, entre nós perto de 500% ao ano! A lei segue o que eu tinha proposto, baseado numa sugestão que me fez meu amigo Eduardo Moreira - que por sua vez se inspirou numa lei semelhante em vigor no Reino Unido - pouco importa o abuso dos juros pretendidos pelos cartões de crédito, o débito fica legalmente quitado assim que o devedor tiver pago o dobro do valor original que tomou. Vamos ver se prospera a lei porque o lobby mais poderoso do Brasil já está atuando da forma como aprendeu a fazer no país: com propaganda mentirosa pra fora e suborno de políticos para dentro. Pela propaganda, fazem a chantagem de que a nova regra vai “diminuir” a oferta de crédito nesta modalidade – isto é pura mentira! Este efeito jamais aconteceu na Inglaterra. Lembremos também, aos gananciosos sem limites da usura oficialmente protegida entre nós, que eles ainda ganharão 100% de juros, em apenas um ano! Nos Estados Unidos, sede das empresas de cartão de crédito, estes juros não chegam a 20% ao ano!
Mas não comemoremos nada ainda, pois, diferentemente da lei britânica, a nossa lei – se finalmente aprovada- ainda devolverá aos bancos (operadores dos cartões) a iniciativa de “autorregulamentação”, através de propostas anuais ao Conselho Monetário Nacional. E somente se este não se manifeste, em até 90 dias, aí sim, passa a valer o novo limite legal. Que coisa, não? É a primeira vez na vida que vejo uma lei que só vale como uma pressão sobre o regulado criminoso…
Esta determinação foi introduzida na lei maior que regulamenta o DESENROLA, nome de fantasia petista para outra proposta que fizemos por anos : refinanciar, com juros civilizados e prazos razoáveis, o explosivo endividamento popular no Brasil do nacional consumismo, tragicamente transformado em projeto de país. Lembrem, são mais de 70 milhões de pessoas humilhadas no SPC/SERASA. Mas aqui, também, distorções favorecendo os bancos foram gravemente introduzidas. Voltaremos ao assunto.
2. Fracassada a tentativa de engolir a EMBRAER pela BOEING norte americana, com o apoio vergonhoso do governo brasileiro de Jair Bolsonaro e seus “patriotas” de araque nas forças armadas, também reforçado pelo silêncio cúmplice de Lula, a tentativa, agora, de destruir nosso fecundo embrião de indústria aeroespacial nacional brasileira, se dá pelo artifício de “compra” de nossa inteligência e engenharia. É caso grave e exige uma firme intervenção diplomática do governo brasileiro! A BOEING está tirando da EMBRAER uma imensa quantidade de engenheiros e técnicos, oferecendo salários acima do mercado e, PROVA DO ENVOLVIMENTO DIRETO DO GOVERNO NORTE AMERICANO (!), vistos de residência e de trabalho praticamente automáticos, embora as contratações sejam, em sua maioria, para a unidade da BOEING no Brasil. Por este caminho também se destruirá a EMBRAER. Há componentes de espionagem industrial eloquentes, se tivermos em conta que as contratações preferem engenheiros seniores que conhecem todos os domínios tecnológicos relevantes da EMBRAER. Isto vai do trem de pouso do KC-390 ao Caça GRIPEN cuja transferência tecnológica inteira foi feita pelos suecos. Não é possível que o governo de Lula não faça alguma coisa, porque tudo o que se fez até agora é um esforço solitário e muito frágil de levar ao judiciário (lembrem-se de Rui!)o assunto por parte da AIAB (Associação das Indústrias Aeroespaciais do Brasil) e pela ABIMDE (Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança).
3. Com o aparente impasse na guerra da Ucrânia, e os tropeços da propagandeada “contraofensiva, Zelensky anuncia a demissão do ministro da defesa Olensky Resnikov. O motivo alegado não foi o aparente fracasso militar, apesar da pesada ajuda dada pelo Ocidente capitaneado pelos Estados Unidos nesta guerra por procuração. A razão divulgada oficialmente pelo presidente ucraniano foi, nada mais nada menos, que corrupção.
Cada vez mais o conflito ucraniano está tomando semelhanças com a guerra do Vietnã, sob o ponto de vista de que as forças do Vietnã do Sul receberam toda ajuda do ocidente (USA à frente), mas a batalha na opinião publica foi perdida. O que vão pensar os europeus se souberem que seu sacrifício coletivo para ajudar a Ucrânia invadida está sendo drenado para a roubalheira?
4. O que esta acontecendo na região do SAHEL, no continente africano? Com a revolução (?)/ golpe militar (?) o Niger, recentemente foi o quarto país, nesta região, a registrar um golpe de estado desde 2020. Antes do Niger, caíram os regimes de Guiné, Mali e Burkina Faso. Alguns traços de “coerência”, ao menos retórica, parecem unir estes movimentos todos: um a um vão sendo derrubados regimes “aliados” ou “títeres” das antigas potências coloniais europeias. Agora é a França que tem repelidos seus interesses pragmáticos, especialmente em matéria energética. O Niger é fornecedor manipulado de UR NIO, ouro, CARVÃO, ferro, calcário e fosfatos .Centralmente, dois terços de energia de centrais nucleares da Franca, cujo insumo é o UR NIO, dependem da matéria prima vinda do NÍGER. E uma das primeiras providências do novo regime do general Tiani, líder da revolução/golpe, foi decretar uma moratória sobre as exportações de urânio e exigir a retirada de tropas francesas estacionadas no país. Rússia e China, quase automaticamente, se aproximaram do novo regime. O Brasil, que tem identidades naturais com o continente africano, ainda não sabe o que fazer. Andar nos salões elegantes é mesmo muito mais cômodo. Por que botar a mão na massa, em direção a construir uma verdadeira nova ordem internacional, como a que defendo, exige, no caso de uma aproximação com a África, muito mais do que uma mera e pretensiosa cooperação caridosa.
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